Super-Exposição: Incomodo?

Opa, desculpa, eu não queria incomodar, mas, sinto que já estou incomodando, então vou me sentir um pouco menos incomodado com isso e incomodar logo de uma vez.
Eis que das entranhas putrefatas (só pra visualizar uma imagem incômoda) deste blog semimorto brota mais uma postagem de super-exposição.

Eis que eu volto a falar de mim.

Incomodo? Bem, se sim, basta você sair do blog.

Se existe uma sensação a qual tenho repulsa e que me acomete mais frenquentemente do que eu gostaria é essa: estar incomodando, ou a impressão de me tornar um incômodo, o que é mais incômodo ainda.

Sabe, imagine um lugar, eu estou lá, você também, a gente não tem intimidade*, talvez nem se conheça na verdade*, mas eu gostaria de falar com você, talvez tenha a sensação de que possamos ser amigos, quem sabe tenha a intenção de ser algo mais.

Tecnicamente bastaria eu me aproximar, me apresentar e começar a conversar, né?

Você poderia ser uma pessoa receptiva e aceitar minha abordagem, conversaríamos então e nos conheceríamos enfim, ou então você poderia não ser uma pessoa receptiva e simplesmente deixar claro que não tinha interesse algum em conversar comigo, eu me afastaria e a vida seguiria. É assim que as coisas normalmente funcionam, normalmente.

Mas, se você já esteve por aqui antes sabe bem que normal é uma coisa que eu não sou.

Então, vejamos, eu estou lá, você também, eu te olho, penso que seria legal conversar com você, talvez você pareça o tipo de pessoa que tem algum interesse comum ao meu, talvez você seja apenas uma pessoa interessante à vista, então caberia a mim, já que até onde posso dizer sou o único interessado, ir até você e começar a falar. No entanto, eu logo penso, e se eu for incomodar?

Vê, é aí que mora o problema, uma vez que eu imagino que posso vir a estar incomodando você, eu me torno propenso a não fazê-lo, porque ser um incômodo é algo que me incomoda muito.

Então, lá estou eu pensando em como provavelmente serei um incômodo para você e me sentindo incomodado só de pensar nisso, o que eu faço? Definitivamente eu não me arrisco a te incomodar, e simplesmente deixo para lá.

Incomodo?

Não! Bem, ao menos eu tento não incomodar.

Tento tanto que gero o maior incômodo para mim mesmo, já que isto bloqueia completamente a minha (ínfima) capacidade de me aproximar de alguém.
Se esta pessoa estiver acompanhada então, deuses me livrem, eu jamais terei capacidade de ir lá incomodá-la, ainda mais incomodando por tabela a(s) pessoa(s) que estiver(em) com ela.

Aí, eu vou simplesmente me focar em outra coisa.

Sim, em outra coisa, porque se eu me focar em outra pessoa tudo isso irá rolar de novo em minha cabeça, e aí aos poucos eu vou ficando mais incomodado com a minha incapacidade de arriscar ser um incômodo para outra pessoa, até chegar ao ponto de decidir-me por ir embora, voltar para casa, para a minha solidão, onde eu não corro o risco de sequer pensar em incomodar, muito menos incomodar realmete alguém. Só a mim mesmo.

Pois é, é isso aí, me desculpa o incômodo, sei que isso é besteira minha, mas eu já estava me sentindo muito incomodado por ter este texto fixado em minha mente. Era muito incômodo.

 

*Infelizmente ultimamente eu tenho a sensação
de que virei a ser um incômodo até mesmo para
amigos e conhecidos, então eu acabei me afastando
de um tanto deles, não é que eu não lhes queira falar,
eu só não sei como fazê-lo sem sentir que eu vou estar
incomodando. Vamos lá, pessoas, vocês me conhecem,
sabem que nunca fui bem certo, isso meio que tem piorado
nos últimos tempos, malz aí, não queria incomodar,

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Um estranho novo mundo…

Desde que eu me entendo por gente, bem desde que eu consigo me lembrar pelo menos, eu tenho uma sensação divina dentro de mim. E, bem se você me conhece, você sabe que eu não me refiro a nenhum tipo de experiência espiritual. Essa sensação do divino não tem nada haver  com o deus judaico-cristão ou nenhum outro deus que a cultura humana terráquea tenha elaborado. Essa sensação de deus na verdade me leva a ter um potencial criacionista que para histórias ficcionais e, principalmente, para geração de mundos fantásticos (como se pode ver na página Mundos e Fundos) com uma miscelânea de divindades, culturas mais ou menos definidas, nações majestosas e poderosas magias. Minha sensação do divino me leva de encontro a meu instável potencial de criação literária, e por vezes sem conta me levou a escrever folhas e mais folhas de material, alguns dos quais foram publicados aqui mesmo neste inconstante blog, outra vertente deste potencial divino é a que me leva a elaboração de mapas para estes fantásticos mundos, o que se tornou quase uma paixão a parte em minha  vida e me levou a buscar métodos para incrementar mais e mais estes mapas. Minha necessidade de evolução me levou a abandonar o simplório Paint e também a meus mapas feitos a mão – não sou lé um grande desenhista afinal – e buscar softwares e páginas que pudessem me ajudar no prazer da cartografia. Minha busca por eles, levou-me a encontrar primeiramente o programa Campaign Cartographer 3, que em minha versão não registrada possui alguns bugs, e, muito posteriormente, ao site de criação de mapas denominado Inkarnate, que até o momento tem se mostrado uma excelente descoberta.

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Papo Cabeça

Em algum momento perdido nas divagações insanas…

Como assim eu deveria falar “oi”, tá loco?
Ué, é assim que se começa uma conversa.
Nem vem, a gente chega falando “oi” pra quem a gente conhece, vou chegar assim pra uma garota que eu só vi três vezes na vida? E no caso vi é vi mesmo.
Mas o que é que tem demais? É um “oi” o máximo que pode acontecer é ela falar “oi” também.
Não, ela pode simplesmente me ignorar!
E aí é bola pra frente, segue a vida, pelo menos você disse “oi”, não ficou lá calado.
Algumas vezes é melhor ficar calado.
Nada haver, tem que se arriscar, pô. E além do mais, ela com certeza diria “oi” também.
Você não tem como saber isso!
Saber saber, realmente não, mas qual é? Você sabe que não foi só você que viu ela, ela também te viu.
Agora o quê? Você vai me dizer que ela me quer…
Não, mas talvez.
Talvez não serve pra nada!
Olha, talvez ela não te queira, mas tenho quase certeza de que ela quer falar com você.
Quase? Quase, talvez, você com certeza tem muitas certezas na vida.
E você quer que eu saiba o que se passa na cabeça dos outros?
Adoraria…
Na verdade eu também, seria bem mais fácil, mas já que não posso dou o meu máximo para notar os detalhes, ver o que está lá ainda que não completamente visível.
Uuuh, agora você tem super-poderes…
Nem, mas seria legal, não seria?
Com certeza seria muito legal.
Ei, eu vi o que você está fazendo.
Viu?
Você está me distraindo para que eu não te convença.
Convencer? Convencer a quê?
A falar com ela, cara, não me faça bancar o Greg pra cima de você.
Agora tu já tem até certeza de que ela tá na minha.
Certeza certeza não, mas vai que…
É você não pode ser o Greg, ele sempre tinha certeza, até quando estava completamente enganado.
Ei, eu posso sim ser um Greg.
Você? Você tem dúvidas até quando está certo.
Arrá! Então você admite que eu estou certo.
Eu disse até quando está certo, não que você está certo agora, não seja estúpido.
Epa, xinga mas não ofende, e eu estou certo. Da próxima vez que você a ver você vai dizer “oi”.
Não vou não.
Vai sim e ela vai dizer “oi” também.
E se ela disser? E então?
E então o quê?
Não se faça de desentendido. Eu digo “oi” ela diz “oi” e acabou.
Acabou?
É, eu fico lá com cara de tacho sem saber o que falar depois, você sabe como é, você me conhece, é por isso que eu não posso simplesmente dizer “oi”, eu não sei o que vem depois do “oi”.
Vem a conversa ué.
Eu não sei manter uma conversa você sabe disso.
Fala do tempo, da demora do buzu, fala do estilo de músicas que ela tem no celular.
Cê é loco, e como eu vou saber isso?
Ora, eu sei que você estava olhando, pense pelo lado bom, melhor metaleira que pagodeira.
É, eu sei que você sabe, mas ela não sabe, e o que ela vai imaginar quando souber que eu tava de olho nas músicas do celular dela?
Que você é um perseguidor louco.
Justamente.
Se bem que…
Se bem que o quê?
Ah, qual é? Ela não estava escondendo nada, ela meio que tava te mostrando, se você parar pra pensar bem vai concluir até que ela estava na verdade te dando uma brecha, uma abertura, um assunto para puxar.
Se eu pensar bem, tem certeza que quer isso?
Eu disse pensar bem, não pensar tanto.
Eu não consigo pensar pouco.
É eu sei, então me escute e deixe essa coisa de pensar para lá, pensar só te atrasa.
É triste admitir isso, mas é, eu sei.
Então vamos por mim, você a viu três vezes, e em todas as três vezes ela te viu também.
Certo.
Houveram resvalos de troca de olhares mais de uma vez em cada uma das vezes.
O que exatamente é uma troca de olhares, é só o acaso, desconsideremos.
Não desconsideraremos nada, a gente tá indo por mim.
Tá.
Na primeira vez foi como uma descoberta, foi realmente acaso, olhadelas quase desencontradas na verdade.
Justamente.
Na segunda vez, porém, quando ela foi pegar o ônibus, ela meio que olhou na sua direção.
Acaso.
Será? Ao meu ver ela estava conferindo se você ia pegar o mesmo ônibus também, como da primeira vez, ela já sabia em qual ponto você desce, afinal.
Será que sabia?
As olhadelas podem ter sido mero acaso, mas você é uma figura fácil de se guardar na memória, você sabe disso.
É, com esse cabelo e esse arremedo de barba, não me esquecem tão fácil, ok, vou aceitar.
Quando viu que você não ia pegar o mesmo ônibus, você viu aquilo na face dela?
Eu não faço ideia do que você está falando.
Ora vamos, havia algo lá, eu posso não ter certeza, mas algo me dizia que era mais do que curiosidade sobre o porquê de você ter deixado passar um ônibus que ia para seu destino.
Ela sabia que eu podia pegar aquele ônibus, estranhou apenas que alguém optasse por pegar um outro ônibus sendo que aquele nem mesmo estava cheio.
Vou admitir que isso até poderia ser, mas vou reafirmar que havia mais do que isso naquela expressão, uma quase decepção.
Não exagere.
Ok. Então vamos para a terceira vez.
Tá.
A vez em que você deveria ter dito “oi”.
Eu não deveria ter dito nada, se devesse teria dito.
Deveria sim, mas não vamos voltar a essa discussão.
Tem certeza?
Sim.
Olha, pelo menos uma certeza.
Cale a boca e me deixe continuar. Você já estava no ponto de ônibus, ela chegou você a viu e ela também te viu.
Nada fora do normal.
Então enquanto esperavam o ônibus ela te checou ao menos mais uma vez.
Talvez, pode ter sido só acaso.
Eu vou só te ignorar e continuar. O ônibus chegou, você subiu, sentou à janela, outras pessoas subiram passaram por ali, e então ela chegou, haviam três lugares livres além daquele ao lado do seu, e aonde ela escolheu sentar?
No lugar ao lado do meu.
Só isso já deveria te convencer, você sabe né? Partindo daquela históra que você acredita.
História? Que história?
Não se faça de idiota, aquela de que sua cara é tão feia e enfezada que o lugar ao lado do seu costuma ser o último a ser ocupado.
Ah tá, essa história.. Ei peraí, eu nunca disse tão feia.
Mas pensou… Eu sei que sim.
Você não sabe de nada.
Ok, voltando, ela sentou no lugar ao lado do seu. Aliás, ao fazer isso meio que esbarrou em você, e o que ela fez?
Me pediu desculpas.
E o que você fez?
Falei que tava tudo bem.
Então, você até já tinha falado com ela, então por que não disse “oi”?
Já voltamos a isso?
Não, ainda não, deixe-me continuar. Ela sentou-se ao seu lado, e começou a colocar músicas para ouvir, displicentemente, enquanto escolhia, deixava o celular meio virado para você, para que você pudesse ver as músicas que ela tinha, te dando um assunto para puxar como eu já disse antes.
Sim, você já disse isso, mas agora você me lembrou que ela estava escutando música. COM FONES DE OUVIDO! Como isso pode ser um incentivo para puxar conversa?

Então vai ficar calado?
Não, este ponto realmente me incomoda, mas talvez ela não quisesse se mostrar tão disponível assim, afinal se todos os sinais não foram o que deveriam ser, ou não foram recebidos da maneira correta, vocês são apenas dois estranhos que por acaso pegam o mesmo ônibus de um mesmo ponto para um outro mesmo ponto.
É exatamente isso que somos.
Mas houveram os sinais.
Você acha que sim.
E as vezes em que ela te olhou no ônibus?
Ela não me olhou.
Ela te olhou sim, e você sabe disso.
Tá, talvez ela tenha olhado, mas tenho certeza que foi apenas porque percebeu que eu a olhava.
E olhou de volta em resposta, não fechou a cara ou se incomodou em se afastar.
E pra onde ela iria? Ficar em pé só pra não sentar do lado de um cara que fica olhando pra ela?
Se realmente estivesse incomodada poderia fazer exatamente isso, mas como não estava não fez, além de tudo te mostrou o que estava escutando, dando-lhe assunto. E mais, quando vocês chegaram ao ponto, e ela retirou os fones, ela te olhou duas vezes, eu tenho certeza que ela esperava que você dissesse “oi”, ela até te olhou quando enfim cada um seguiu seu caminho, e você viu porque também estava olhando pra ela.
Vi, mas sei que ela provavelmente estava apenas tentando imaginar o que eu deveria estar pensando olhando tanto pra ela.
Se fosse isso a coisa estaria feia pra você, porque ela provavelmente te pintaria pior do que você é.
Absolutamente.
Mas não era isso, ela provavelmente estava pensando no porquê de você não ter dito “oi”.
Eu bem queria que fosse isso.
E por que então você não disse “oi”?
Porque ela parece ser demais.
Mais um motivo para dizer “oi” quem não quer um garota demais?
Você entendeu.
Entendi?
Claro que sim, você sempre entende tudo.
Quase tudo, eu jamais vou entender essa sua mania de achar que alguém é demais pra você.

 

12 minutos

Cabula VI 1130-00, 7h20, Salvador, Bahia de todos os santos, encantos e axé…

.
Camisa florida, calças e tênis brancos, para combinar com os fones de
ouvido. Os cabelos castanhos elegantemente amarrados num belo
rabo-de-cavalo, alguns fios esvoaçam soltos, mas no lugar de
deturparem o conjunto, acrescentam um ar de quem não se incomoda tanto
assim com superficialidades, uma certa displicência com imposições de
perfeições. A despeito do sacolejar do corredor, ela anda com leveza,
traz no rosto um certo olhar distante, de quem não está realmente ali,
está apenas de passagem. Por onde será que andam seus pensamentos? Com
quem? Talvez estejam apenas pouco mais adiante, nos estudos que os
livros e cadernos que carrega revelam estar presente em seu dia,
talvez estejam num sortudo, com quem de lugar eu sem nem pensar
trocaria.
Pobre de mim, ela nem faz ideia de quem sou. Mas me notar, com certeza
já notou. Como não? Sou o estranho cujos cabelos não são cortados nem
penteados e a barba está sempre mal feita, todo mundo meio que me
nota. Ela não seria diferente. Não que ela seja como todo mundo. Mas
há coisas que todo mundo nota, até quem não é todo mundo. Óbvio que
notar é algo completamente diferente de se importar, registra-se
momentaneamente e depois esquece-se, na maioria das vezes. Mas vou
parando por aqui, porque não escrevi para falar de mim.

.
Escrevi para falar dela, dessa repentina meio que quase paixão.
O nome dela? Nem sei, mas a tenho chamado de Inspiração.

DEUS: Uma Saudade

Olá, meu nome é Gustavo Moreira, e estou aqui para dar meu testemunho, venho falar de deus.

Mais especificamente da falta que ele me faz.

***

Não sei quem lerá esta postagem, provavelmente ninguém, afinal pra quem vê de fora este blog tá semimorto  já há algum tempo.

Mas talvez algum dos seguidores recebam uma sinalização – seja lá como isso funcione – e venha dar uma volta pra ver o que tá acontecendo nessa terra de ninguém.

Desde setembro não se publica nada por aqui.

Antes dessa setembrina postagem filha única, apenas maio havia visto algum movimento, três raros – pela quantidade, não pela qualidade – movimentos.

Em resumo, durante todo o ano de 2016 – que em seu início foi empolgadamente denominado “ano da mudança” por esse iludido projeto de blogueiro que vos fala – contou com 23 publicações.

Comparativamente em 2015 foram 38, mas numa análise mais profunda, este ano de 2016 se localiza em terceiro lugar – em número de postagens – considerando o quinquênio atual: 2015 – 38 postagens; 2012 – 27; 2016 – 23; 2014 – 20; e 2013 – 19.

Mas, eu estou divagando.

O blog tá quase morto, e apenas o meu apego o mantém existindo.  Meu apego e minha inépcia em escrever-lhe um réquiem.

Inumeráveis foram as tentativas. Há uns dias, fiz uma limpa na pasta de rascunhos do blog com pré-posts contendo uma ou duas linhas, muitos deles textos que ensaiavam anunciar o fim do blog, agora obliterados.

Se o blog realmente está condenado? Não sei. O que sei é que estou divagando demais e deixando a postagem de lado.

Então aqui acaba essa interrupção.

***

Vamos agora falar de deus e da falta que ele faz em minha existência:

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10Caminhos

No primeiro

Caminhei pelo barro. Sem saber ainda quem eu era.

No segundo

Caminhei pelos sertões. Descobrindo auríferas jazidas.

No terceiro

Caminhei pelas terras artonianas. Tentando vencer a Tormenta.

No quarto

Caminhei pelo frio. Descobrindo quem eu deveria ser.

No quinto

Caminhei pelos paralelepípedos. Me enriquecendo com Magia.

No sexto

Caminhei pela trilha de um herói. Narrando os percalços de sua história.

No sétimo

Caminhei por uma selva de pedra. Perdido sem mais saber quem eu era

No oitavo

Caminhei pelas terras de Ni-Merin. Seguindo os rastros do Plano do Desafiador.

No nono

Caminhei pelas areias molhadas. Ouvindo o vento e o mar a namorar.

No décimo

Caminho pela Estrada Imperial. Buscando reencontrar um certo herói.

Tudo Acaba

E algumas vezes, eu me pego pensando nela.

Sentindo aquela injustificada saudade das coisas que eu e ela não chegamos a viver.

De tudo que planejamos juntos, antes de nos separarmos.

De todas as continuações, antes de sabermos que éramos um ponto final.

Algumas vezes, meio que chego a desejar reencontrá-la.

Imagino como seria.

Será que quando eu olhasse nos olhos dela ela me encararia ou só me ignoraria.

Será que ela gostaria de conversar, de saber como as coisas continuaram pra mim e de contar como continuaram para ela?

Ou será que os sentimentos falariam mais alto e ela brigaria comigo?

Ou ainda, talvez ela simplesmente me ignorasse deixando claro o que somos agora.

O que somos eu e ela.

Nada.

Nada.

É tão estranho isso de deixar de ser.

E tão comum ao mesmo tempo.

Afinal, tudo acaba.

 

 

O Claustro

Não era um cômodo muito amplo. A bem da verdade era quase completamente o oposto de amplo. Se houvessem mais itens dentro dele, estaria completamente atulhado. Havia uma cadeira desconfortável, uma mesa com alguns livros e um catre forrado com algumas colchas num canto, sobre o catre, a uns 60 centímetros de altura havia uma plataforma de madeira sem nada em cima. Uma mesinha de canto com um odre de água completava a mobília.

O cômodo era retangular, feito de toras de madeira, não desbastadas nem aplainadas. Haviam cinco janelas, a saber: duas do lado oposto à mesa, uma na parede atrás desta, um metro e meio ao lado da plataforma sobre o catre, a última na parede oposta a essa estava 30 centímetros ao lado da porta.

Seis acessos ao exterior. Ou quase.

Todas as janelas, e a porta, eram feitas com uma grossa prancha de madeira grosseiramente aplainada. E todas estava fortemente trancadas.

Quem, ou o quê, estivesse ali dentro não sairia, nem deveria sofrer interferências do que havia lá fora.

E assim deveria ser.

Com relação aos livros sobre a mesa. Estes não eram portais para outros mundos. Ao menos não para outros mundos que valesse a pena querer ir.

O tomo mais grosso, com mais que o dobro de páginas de qualquer outro livro na mesa, trazia na capa a inscrição Vade Mecum, algo como “me acompanhe” em uma língua ancestral.

Os outros livros encapavam as palavras: Manual do Direito Administrativo, Constituição Federal, Direito Previdenciário Esquematizado, Gramática para Concursos, Informática para Concursos, Raciocínio Lógico Matemático, Regime Jurídico Único, Manual de Ética do Servidor Público Federal, Técnico do Seguro Social e Questões para Concursos Públicos.

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Super-Exposição: Perdido

Tão perdido que não consegue nem encontrar as palavras para escrever o texto.

Meia Hora Depois:

Eu já fui alguém com sonhos, sabe. Sonhos de verdade! (hãn?)

Eu tinha metas de vida. Ou algo tão próximo a isso que não vale a pena diferenciar.

Mas tudo foi ficando para trás.

Por motivos variados, eu fui deixando de lado cada uma daquelas coisas que poderiam vir a me definir.

Dizem por aí que “quem se define se limita”. Mas, o que não dizem, é que se não nos delimitarmos perdemos o foco e nos espalhamos assimetricamente para além de onde deveriam estar nossos contornos.

Pensa num litro de água, por exemplo. Se você o limita a um copo, uma garrafa, um recipiente qualquer, o litro de água terá utilidade, poderá ser usado para realizar coisas, matar a sede, regar as plantas. Mas se vertemos o litro de água em qualquer superfície que não o limite, mas também não o torne útil, por exemplo o chão de um pátio, a água, não limitada, se espalhará inconsequentemente para os lados, todos eles, sem foco algum, só se desacumulando do ponto de vertimento, se espalhando até ser apenas um fina camada de água: amórfica, inútil, frágil e irrecuperável.

Nos deslimites, expandimos mais facilmente, mas como somos todos submetidos às leis da física, quando você tenta fazer um material expandir além dos seus limites básicos, você força aquele material a ser afinado, fragilizado. Pensa num bastão (?) de massa de modelar. Ele tem um volume e uma forma. Essa forma é, obviamente, modelável. Podemos amassá-lo numa bola compacta e de aparência volumosa, ou rolá-lo nas mãos de modo que ele vá se tornando uma longa “cobra” fina se expandindo além dos limites que o bastão demonstrava, ficando mais e mais fina até que não aguenta a tensão e rompe. Frágil.

Não impondo ou respeitando limites, nós nos fragilizamos, perdemos a forma, rompemos, pedaços se perdem, algumas vezes de forma irrecuperável.

Mas eu não estou aqui pra falar de limites. Não diretamente, mas é como diz o título, eu estou perdido. E cá estou me perdendo no tema e na postagem.

Voltemos.

Eu já fui alguém com sonhos.

Coisas que eu queria realizar.

Coisas que deixei pelo caminho.

Provavelmente com a intenção de reavê-las depois.

Mas nunca voltei para buscá-las.

Ou pior.

Até voltei, mas além de não encontrá-las.

Eu ainda me perdi também.

Eu não sei onde foi parar o cara que eu deveria ter sido.

Eu não sei nem onde foi parar o cara que eu fui.

Sou acusado, e admito a culpa, de ser muito apegado ao passado.

Mas o que posso fazer se diante de tanta possibilidade pra futuro eu acabei perdendo o presente?

Me volto pro passado, quase desejando que ele volte.

Mas não é o passado que eu quero que volte, não é uma ou outra relação que tenha tido, não é uma vida sem se preocupar com ter que ter um emprego, um meio de manter-me na vida independente de auxílio de outrem. Não quero reviver o que já vivi.

O que eu quero de volta é o eu do passado. Aquele eu que quando falava dos planos não só acreditava como fazia os outros acreditarem. Todos os que o conheciam sabiam que ele seria grande.

Não foi.

Ao invés disso, deixou-se ficar, e seguir adiante sem si mesmo de companhia. Seguir adiante aliás, só temporalmente, porque não se pode parar o tempo, porque em sua realidade nada seguiu, nem foi adiante.

O livro que escrevi, e que me rendeu a conclusão do curso, que na época faltavam só alguns acréscimos e alterações para estar num nível publicável, foi deixado de lado desavergonhadamente.

O outro que vertia de meus dedos em formato semi-folhetinesco neste mesmo blog se mantém inacabado, com um fim, mas sem um caminho certo para alcançá-lo e quem sabe ser publicado um dia.

A pós-graduação que eu ansiei, e ensaiei, fazer. Foi pro buraco (quase-literalmente). Mas essa desistência foi previdente, visto que apenas antecipei-me ao cancelamento do programa ocorrido no mesmo ano que conclui o curso.

Uma pós-graduação alternativa? Imaginada, mas nunca pensada de verdade.

Na demora (que até hoje perdura) de uma pós ou mestrado na área de comunicação na minha antiga universidade, arrisquei o que havia, mas se o pouco conhecimento de base na área das Ciências Sociais não me detiveram, fui barrado pela falta do famigerado QI.

Espalhei currículos nos veículos de mídia da região cacaueira e me entoquei no Mamoã.

Não sabia bem o que fazer.

Não fiz nada.

Caiu-me ao colo, com ajuda do QI, a oportunidade de praticar a formação. Escrevi para três edições da revista Folha da Praia, numa modalidade de freelancer.

Mas de mim para mim, continuava me perdendo.

Então surgiu uma oportunidade de ouro.

Eu enfim poderia levar toda essa história para um outro nível. Um nível muito mais elevado.

É óbvio que a história que me refiro é a minha própria história.

Mudando-me para a maior cidade da América Latina eu estaria apto a realizar grandes coisas.

Eu ainda não fazia ideia de quanto eu estava perdido. Então tive esperança.

Depois de currículos espalhados incansavelmente. Na área.

Cursos preparatórios para concursos gerais.

E mais currículos espalhados e enviados. Em qualquer área.

Eu percebi que havia realmente levado a história para outro nível.

Um pior.

Cego em tiroteio volta a ver e começa a atirar.

Se comparado com o quanto eu estou perdido.

Não sei mais o que sou. Não sei mais quem sou. Não sei mais o que quero. Não sei mais o que sinto.

Tudo se confunde.

E minha bússola gira incessantemente tentando encontrar um norte que não está lá fora.

Não é um pólo magnético.

Eu estou perdido.

Precisando me encontrar.

E tudo que eu preciso está aqui dentro de mim.

Mas tá uma bagunça tão grande.

E contínua.

Que fica cada vez mais difícil achar.